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domingo, 9 de maio de 2010

Noel Rosa e o feitiço da Vila: um samba em feitio de oração

“Um cometa que cruzou a vida”

O ano de 1910 é emblemático por três acontecimentos marcantes. O primeiro foi a passagem pelos céus do cometa de Halley, episódio entendido por muitos como o prenúncio do fim do mundo.

O segundo: revoltados com os soldos miseráveis e com os castigos corporais humilhantes que recebiam, os marinheiros, liderados por João Cândido, o Almirante Negro, revoltam-se e ameaçam atacar o Rio de Janeiro, caso suas reivindicações de mudanças no código de disciplina da Marinha não fossem atendidas. A repressão ao movimento foi vigorosa e a cidade virou uma praça de guerra. Os líderes do movimento foram presos, outros foram expulsos da corporação, mas os maus tratos terminaram com a extinção da chibata.


O terceiro acontecimento é o que mais nos interessa neste artigo. No dia 11 de dezembro daquele ano, nasceu, prematuro, na rua Teodoro da Silva, nº 30, em Vila Isabel, Noel de Medeiros Rosa, filho de Manoel Garcia de Medeiros Rosa e Martha de Medeiros Rosa. O nome escolhido pelo pai vinha da certeza de que o menino nasceria no dia de Natal, mas o bebê, chegou antes do previsto. O parto, feito a fórceps, deixou-o com um defeito no queixo, que se supunha passageiro, mas que o marcou indelevelmente por toda a sua curta vida, apesar das duas cirurgias reparadoras pelas quais passou e que de pouco adiantaram.


“Quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila ao abraçar o samba...”

Seu gosto pela música manifestou-se logo. Seu pai tocava violão nas festas e sua mãe, bandolim, instrumento pelo qual Noel se interessou inicialmente e, no qual, incentivado por ela, tornou-se exímio instrumentista. Mas Noel não queria apenas executar as músicas dos outros. Intimamente, sabia que tinha muito a dizer e que precisava de um veículo mais completo para expressar o que sentia sobre a vida, o mundo, o amor e os costumes de sua época. Por isso, na adolescência, abraçou, literal e metaforicamente, o violão, com o qual matava as saudades do pai, sempre distante em viagens de negócios, e onde compôs suas músicas imortais.

Entre os colegas do Ginásio São Bento, Noel tornou-se um ídolo. Também, pudera: o arsenal de que dispunha para impressioná-los era vasto. O raciocínio rápido, as idéias originalíssimas sobre quase tudo, o olhar sempre aguçado para o que se passava à sua volta e o humor ferino que desfiava em trocadilhos eram um diferencial de sua personalidade. Não bastasse isso, , havia as piadas inventadas na hora, as imitações perfeitas que fazia de colegas e professores e as caricaturas que desenhava com desembaraço.

Era o primeiro em tudo, com exceção das notas. Foi o pioneiro nas investidas sexuais e amorosas às colegas de bairro e de colégio. Apesar de reconhecidamente feio para os padrões tradicionais, encantava as moças com sua inteligência e com seu bom-humor – as qualidades mais apreciadas pelas mulheres da época - que minimizavam o defeito no queixo e sua aparência desleixada. Quando só isso não bastava, apelava para o violão a para as canções, em que era verdadeiramente imbatível.

Após a primeira incursão numa casa de prostituição, a Casa Amarela, da rua Visconde de Itamarati, no Maracanã, Noel ousou vôos mais altos e, em pouco tempo, circulava com desembaraço na Lapa e na zona do mangue, lugar de desocupados, malandros e mulheres de vida fácil. Os colegas eram levados e se divertiam com ele, um veterano em orgia, bebidas, mulheres e cigarro aos dezesseis anos.


“Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa...”

Sentia a falta do pai, sempre ausente, e disso reclamou com alguns amigos. Precisava de alguém que lhe impusesse limites, que o chamasse às responsabilidades e, na ausência de seu Manoel, seguia somente as ordens de seu coração inquieto e insatisfeito e de sua mente curiosa e devassa. Nem mesmo os padres do Ginásio São Bento conseguiam incutir-lhe bons modos e retidão.
A influência familiar se dera em duas direções. Dos pais, avós e tios herdara tanto o talento musical e poético quanto o desatino e a loucura. O pai, acometido de maleita, contraída nas muitas viagens ao interior do Brasil, como agrimensor, tinha alucinações e dizia coisas desencontradas no final da vida. Antes considerado um gênio por suas idéias e atitudes, delirava e recusava as diversas propostas de emprego que recebia, por considerá-las abaixo do que pensava merecer. Sua inteligência reconhecidamente acima da média e suas invenções pouco úteis acabariam por levá-lo à perda da razão. A avó Bela suicidara-se no quintal de casa por razões parecidas e por nutrir uma tristeza infinita e, aparentemente, sem propósito. Para piorar, o corpo foi encontrado por Noel na volta de uma de suas muitas noites de farra e esbórnia.

“Tenho passado tão mal...”
Um dia, foi encontrado estirado no chão do quintal, machucado no rosto e nas pernas. Disse aos que o socorreram que tinha caído do barranco que ficava nos fundos da casa e de onde gostava de escorregar com o irmão, quando menino. Mas em todos pairou a dúvida de que tivesse tentado se matar como a avó, de tristeza e desgosto. Motivos não faltariam para isso.
Acumulando desafetos entre os professores, por conta de tudo o que aprontava, Noel, ao final do Ginásio, acabou reprovado em três matérias e acabou por perder o ano, apesar da mobilização familiar e dos amigos para que isso não acontecesse. Após a reprovação, a vida de Noel resumia-se à casa, proibido da farra e sem acesso ao violão, que o pai julgava ser o responsável por seus fracassos escolares. Mesmo assim, fugia de vez em quando, à noite, para o encontro dos poucos companheiros de boemia que ainda tinha, pois a maioria já começava a tocar a vida e a se preparar para a fase adulta. Na volta, a pena, que já era dura, dobrava. Distante das mulheres, do violão, das paixões platônicas que cultivava e que motivavam versos e canções, longe dos amigos e da escola, Noel definhava. A vida reclusa fazia-lhe mais mal do que os vícios.
O esforço da família em lhe dar um rumo mais responsável surtiu algum efeito. Conseguiu entrar no curso de medicina da antiga Universidade do Brasil, atual UFRJ, mas só ficou na faculdade por pouco mais de um ano, tragado pelo sucesso que seus dotes musicais impressionantes começavam a lhe trazer e, consequentemente, pelos muitos convites para tocar em grupos para se apresentar em shows, revistas e nos programas de rádio que começavam a estourar no Brasil e que se tornariam em pouco tempo uma mania nacional. Da passagem pela medicina ficou apenas “Coração”, “samba anatômico” composto pelo poeta.

“Agora, eu vou mudar me conduta...”

Entre as várias portas na área musical que se lhe abriam, uma seria decisiva para seu reconhecimento nacional. Jovens das redondezas de seu bairro resolveram formar um conjunto e convidaram Noel, de cujo talento já se falava nos bares dos arredores, para integrá-lo. Formava-se, então, o Bando dos Tangarás, que tinha, entre outros, Braguinha, filho de um gerente da Fábrica Confiança – a dos “Três Apitos”, e Almirante. A idéia era de que cada componente assumisse um nome de pássaro como pseudônimo artístico, motivo pelo qual Braguinha tornou-se o João de Barro, por exemplo. O grupo logo conseguiu entrar nas rádios e começou a gravar discos, primeira experiência de Noel na música profissional. Nesse novo meio, o Poeta da Vila encontra novos amigos - Lamartine, Vadico, Orestes Barbosa, – e, em pouco tempo, ganha o respeito de seus pares por seu violão e por suas canções.
Apesar do sucesso no meio musical profissional, Noel Rosa continuava fiel à boêmia e a freqüentar, por isso, a Lapa de Sinhô, o Estácio, de Ismael Silva, e alguns morros, principalmente o de Mangueira onde, entre outros, conhece Cartola. Essa profícua troca de informações que ele desenvolve, sem querer, entre músicos e compositores de locais e estilos diferentes, oxigena o samba e promove a fusão de estilos que dará a este gênero musical uma nova face a partir dos anos 30. Uma maneira nova de se fazer e de se tocar o samba está por nascer, diferente do modelo que vigorava desde a primeira década do século XX, quando o samba ainda era muito próximo na sonoridade e na temática do lundu e do maxixe.
Noel Rosa, que pertencera ao bando dos Tangarás, cujos componentes tinham pseudônimos de pássaros, funciona como um de verdade e poliniza os diversos ambientes em que o samba floresce, levando de um lado para outro as nuances e as maneiras de se tocar e de se compor nesse estilo musical que, embaralhadas, vão criar um fruto novo de nossa rica e inesgotável cultura.

“Batuque é um privilégio e samba não se aprende no colégio...”

O gênero musical brasileiro mais identificado com a nossa cultura e mais presente em nossas tradições, corações e mentes é, sem dúvida, o samba. Sua origem negra e baiana e sua acomodação harmônica, melódica e rítmica no Rio de Janeiro já foram objeto de muitos estudos acadêmicos. Hoje, é consenso que o samba é dividido em duas fases históricas: a que vai de 1917, a partir da gravação de “Pelo telefone”, pelo compositor Donga, até fins da década de 30, e a que se inicia aí e vigora, com poucas modificações, até hoje. À primeira fase, de influência nitidamente baiana, pertencem Sinhô, Pixinguinha, João da Baiana e o próprio Donga, todos freqüentadores das famosas rodas ocorridas na casa da Tia Ciata, na Cidade Nova. Da segunda, os sambistas do Estácio, entre os quais Ismael Silva, Bide e Brancura. O samba feito nessa parte do Rio de Janeiro logo se espalha por outros bairros onde o samba já existe, sobretudo pelos morros, o que originará as escolas de samba.
Noel Rosa profissionaliza-se no fim da década de 20 do século passado, quando a primeira fase do samba dá seus últimos suspiros. Sua amizade com Cartola, Ismael Silva, Sinhô e Heitor dos Prazeres faz dele a simbiose perfeita dos dois estilos. Ora influenciado por uns, ora por outros, o adolescente Noel ouve com atenção e reverência pérolas de um e de outro estilos. Mistura em seu baú tanto o samba que tem o parentesco mais aparente com o maxixe quanto o samba que, de uma geração posterior, já não dá tantas pistas de sua origem baiana e de sua filiação ao lundu. Quando começa a compor, o Poeta da Vila produz obras que ainda trazem as características do samba original, mas já elaborado segundo as novas concepções harmônicas e rítmicas do gênero que toca com mais freqüência nas rádios e nos carnavais.
O primeiro sucesso de Noel Rosa como compositor foi “Com que roupa”, samba gravado e apresentado em 1930, mas composto quando o compositor tinha apenas 17 anos. A curiosidade dessa composição fica por conta de que o primeiro verso fora composto sobre a melodia da primeira frase do hino nacional. Para comprovar, basta cantar “Agora, eu vou mudar minha conduta...” entoando a frase melódica que abre o nosso parnasiano hino. O maestro Henrique Dorneles percebe a coincidência musical e conserta a primeira frase daquele que seria o maior sucesso do carnaval de 1930.
“E o povo já pergunta com maldade: onde está a honestidade?”
A partir daí, multiplicam-se os sucessos e as parcerias. Ora como letrista, ora como melodista, à vezes compondo sozinho, Noel vai deixando em seu caminho canções que ainda hoje impressionam pela vivacidade e beleza. Suas letras, de humor fino, que revelam uma compreensão madura do que acontecia à sua volta, são um painel irretocável da sociedade carioca e brasileira de sua época.

A política, os costumes, as mudanças por que passam as estruturas sociais, nada escapa à sua aguda percepção.

Uma interessante observação se pode fazer sobre a sua obra musical: foi Noel com seus sucessos um dos responsáveis pela fixação do samba como o conhecemos hoje; uma forma artística simples em que se juntam letra e melodia despojadas que se completam num todo coeso e indissolúvel. Esse modelo difere do que fora feito na gênese do ritmo quando havia apenas um refrão, muitas vezes de domínio público, e as partes seguintes eram improvisadas pelos compositores presentes. É a partir dele que o novo formato se solidifica e se reproduz infinitamente até os dias de hoje, com pequenas alterações. A fisionomia ainda apegada ao maxixe e ao lundu do samba que nasceu nas rodas da casa de Tia Ciata, na Cidade Nova, vai se modificando e aproxima-se da marcha, para, como dizia Ismael Silva, outro bamba do período, propiciar o desfile dos blocos e escolas de samba. É nesse formato, novo e definitivo, que Noel compõe. Dele se torna um mestre e lhe dá a feição que tem até hoje, porque atinge os maiores níveis de construção melódica, harmônica, rítmica e poética. Mais do que isso, a canção popular conquista o gosto popular e se torna, por isso, um produto que se espalha pelo país através do rádio e dos primeiros discos gravados.
Sua adesão a esse “novo samba” que nasce no Estácio, freqüentado por ele, é importante para ambos. Para Noel porque, a novidade lhe permite rapidamente atingir o status de bamba, o que não ocorreria se criasse no estilo antigo e em que teria de concorrer com monstros sagrados como Sinhô e Heitor dos Prazeres, por exemplo. Para o gênero porque é Noel quem faz com que atinja os maiores níveis de construção melódica, harmônica, rítmica e poética do período e pavimenta o caminho para que, mais tarde, ele seja trilhado com igual maestria por compositores como Ari Barroso, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Arlindo Cruz e Nelson Cavaquinho, por exemplo. E ainda porque é ele quem leva o samba, “coisa de negros”, “da sala de jantar para a sala de estar” e o oferece, com seu verniz, às classes mais abastadas que passam a consumi-lo em larga escala.

“O orvalho vem caindo...”

Noel é, por tudo isso, sem dúvida, um dos maiores nomes de nossa música popular. Os versos e as melodias imortais que compôs permanecem no inconsciente coletivo da sociedade carioca e brasileira. Nas rodas de samba que se espalham pela cidade, como acorria, aliás, em sua época, suas músicas são ainda cantadas com alegria e ouvidas com espanto e prazer pelos freqüentadores. Suas quase trezentas canções compostas em menos de sete anos fazem parte de nosso inventário afetivo. Mesmo tendo sido compostas há mais de setenta anos, exiladas de nossos ouvidos pelo descaso da mídia, basta apenas que ouçamos os primeiros acordes de “Feitiço da Vila”, “Três apitos”, “Com que roupa”, “Conversa de botequim”, “Fita amarela” ou “Até amanhã para que reconheçamos qualquer uma dessas canções e cantemos ao menos alguns versos de cada uma delas. A força de sua obra resiste ao tempo, como só acontece com os clássicos, o que nos garante que Noel Rosa, apesar de ter estado entre nós por apenas 26 anos, viverá para sempre.


Artigo de Zé Arnaldo

sambanacabeca.blogspot.com

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